sexta-feira, 20 de maio de 2016

CINEMA E FILOSOFIA: SANTO AGOSTINHO CONTRA AS PAIXÕES.


                  

Favelas. Traficantes num confronto sanguinolento pelo poder. Tiros de fuzil que cortam as noites como se fossem fogos de artifícios. Balas perdidas e inocentes mortos sem, ao menos, saberem qual a razão de serem assassinados. 

E é esse o atual retrato de grande parte do Brasil da atualidade. O fato é que confrontos como esses, relatados acima, são tidos como comuns, para a maior parte da população brasileira. E, pelo simples fato de serem comuns, eles não nos espantam mais, não nos machucam mais e, por isso, não nos motivam mais a buscar mudanças - para si e para os outros.

O costume é um monstro que não nos amedronta mais. Entende-se por costume ações praticadas e reiteradas por tanto tempo que sequer nos deixam respirar com tranquilidade. Por isso, devemos dizer - e de passagem - que o costume é um veneno que, sem vermos, mata-nos lentamente. 

Por conta desse monstro, alguns indivíduos não "respiram" mais, espantam-se mais e assombram-se mais com a vida social atual, dado que não veem sequer uma pequena fresta, diante dos seus narizes, de mudança. Desse modo, são obrigados a permanecem quietos, paralisados e amordaçados. 

Em contrapartida a esse modo de perceber a realidade atual, existem pessoas que se encorajam e se arriscam em meio às tentativas de demonstrar, para os outros, o que eles não conseguem mais ver. Pois, estão submersos numa piscina larga e profunda onde cada indivíduo luta pela sua própria subsistência. 

Pensando nisso, o cineasta Damian Szifron rompe com o Monstro do Costume cotidiano em seu filme Relatos Selvagens e nos indica um remédio para acordarmos de uma cegueira profunda onde não se mensura nenhum ponto de luz. 

Em seu filme – já mencionado – demonstra-nos alguns casos com fortes semelhanças com o nosso cotidiano brasileiro e que nos incita a refletir sobre as nossas próprias relações com os outros. 

Dentre os causos demonstrados pelo cineasta, está o de Gabriel Pasternak que, frustrado com a sua história de vida atrelada à de diversas outras pessoas, as convida, de modo oculto e calculista, a um passeio de avião. Assim e em meio às tranquilas e gratuitas poltronas do avião, uma das personagens do filme dedicava-se à leitura da sua revista de moda, enquanto outras permaneciam caladas e com os seus fones de ouvido - típico do mundo moderno! 

Nesse meio tempo e entre tantas personagens, o nome Gabriel Pasternak tocou, em alto e bom tom, o teto do avião que estava prestes a decolar. Era certo que o nome de Pasternak comoveria a todos no momento oportuno, uma vez que os mesmos, no Avião, tinham uma relação de proximidade com o musico clássico. 

O que todos não sabiam é que foram convidados, por Pasternak, para um voo só de ida - a professora da escola, o crítico de música, a ex-noiva, o psiquiatra, bem como todos os outros. 

O grande problema é que toda a tripulação do avião teve consciência da proposta de Pasternak tardiamente; isto é, só quando o avião já estava planando sobre as bolsas de ar. Tarde demais – sentiram os tripulantes. Como dito, todos descobriram tarde e isso foi o suficiente para que os planos de Pasternak se efetivassem. E o mesmo concretizou-se com a derrubada do avião na residência dos seus próprios pais – talvez, seja essa a interpretação que se chega! 

Mediante a esses relatos de brutalidade, criminalidade e intolerância por parte das cidades do Brasil, bem como das atitudes de Gabriel Pasternak, as perguntas que devemos fazer são: "em qual esquina do mundo, a discussão do que seja justo ou injusto perdeu-se? Em qual parada de trem ficou a questão do mal? Aliás, essas "infrações", que aliviam as crises existenciais de alguns indivíduos, são justas ou injustas para com outros? Em contrapartida à questão da justiça, a problemática do mal deve ser fundamentalmente levada em consideração! Por isso, interroga-se: "o que é o mal? Em se tratando de responder o que é o mal, também vale a questão: qual a extensão dá má atitude frente ao próximo?”. 

Para responder a questão do mal do ponto de vista conceitual e de como esse conceito estende-se às nossas ações, nos fundamentaremos em Santo Agostinho – pensador da Patrística; sobretudo em sua obra Confissões. Pois, a definição de Agostinho sobre o mal "responderá" tanto a questão do mal no Brasil, bem como as ações de Pasternak no filme Relatos Selvagens

De acordo com Santo Agostinho, Deus criou todas as coisas boas. Portanto, tudo o que há - árvores, céu, terra, cavalos, mulheres e homens. O problema é que se Deus criou tudo o que há – por exemplo, homens, mulheres... – seria ele responsável por criar o mal, dado que o mesmo é inevitável nas ações de suas criaturas? 

Agostinho passa, então, a lidar com um problema delicado, posto que se Deus criou tudo o que há é impossível retirar o mal, propriamente, de Deus. O filósofo, assim, atem-se ao homem e descobre que o problema do mal não está em Deus. Mas, exclusivamente, em sua criação. 

Agostinho, portanto, tem de solapar o Maniqueísmo - doutrina persa que ensinava que existem duas forças eternas em conflito: o bem e o mal – para responder o problema e livrar Deus de toda e qualquer culpa! 

No livro As Confissões, o teólogo escreve que o homem é um ser dotado de Vontade e de Razão. Pois, deste modo, Deus deu vida às suas criaturas. E é aí que reside todo o problema do mal, posto que o ser humano – movido por suas paixões – entrega-se demasiadamente às suas vontades, quando na verdade, deveria, no momento oportuno, as frear. 

Mesmo sendo um ser racional, o ser humano não consegue reprimir o que lhe é inerente – no caso, a sua vontade. Portanto, age e pratica o mal. Não é à toa que Agostinho confessa:
Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema – de vós, ó Deus – e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência (AGOSTINHO, 1999, p. 190).

De acordo com o fragmento citado, o conceito de mal pode ser estabelecido de modo que o homem não se entrega completamente a Deus. Mas, às suas paixões terrenas – que são, quase que inevitáveis. Portanto, o mal – de acordo com Agostinho – é o afastamento de Deus e o reconhecimento e entrega à vontade.

Assim, Agostinho oferece uma possível resposta para o problema da brutalidade no Brasil, bem como para as ações de Gabriel Pasternak. Conclui-se que, na perspectiva de Santo Agostinho, é e será necessário retornarmos à Deus. Todos. E largarmos as nossas paixões particulares. Talvez, assim, o problema do mal seja solucionado.


BIBLIOGRAFIA.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. Por J. oliveira Santos. São Paulo: Nova Cultura, 1999.