segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O HOMOSSEXUAL SUICIDA.

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DEUS: nunca preencherá todos os nossos espaços, as nossas lacunas, os nossos medos, os nossos amores... porque ele compreende que existem territórios que são para homens e não para Deuses.


Óleo e Água são como a Igreja e os Gays: não se abraçam nunca. O relacionamento não é palco pra eles. É sobre essa ausência de abraço; sobre essa tristeza; sobre essa ausência de relacionamento entre ambos que escreverei. E o mais incrível:isso não é novidade pra ninguém! O conflito entre esses opostos será palco pra nos deleitarmos e aprendermos sobre o diferente.

No entanto, esse texto não será escrito de modo frio, mas vivo. Escreverei sobre lembrança. Ela é lugar de (re)visita. Vou (re)visitá-la, agora. E peço que você, caro leitor, venha comigo. Por favor, não traga os pre-conceitos na sua mochila existencial, dado que não será necessário. São só lembranças abraçadas a conclusões que nos possibilitarão repensar as nossas opiniões e posturas frente ao outro, ao próximo e ao oprimido.

Já vivenciei muitas experiências na Igreja, cristã. Algumas alegres, outras tristes. Algumas pesadas, outras leves. Mas, uma, em especial, nunca me saiu da cabeça: a experiência de saber que um homossexual tentou suicídio por Deus não curá-lo de sua vocação homossexual.

Ao ter contato com a história dele, fiquei decepcionado... Talvez devastado seria uma palavra melhor pra expor os meus sentimentos naqueles dias. Pois, prometeram uma cura impossível a ele. E é sobre ele que chorarei agora, dado que uma história como essa é digna de choro e não de felicidade ou aplausos.

Estávamos num jantar, cristão. E, grande parte dos jantares cristãos, são regados ao molho do testemunho. Todos nós contamos os nossos principais testemunhos de vida até chegarmos à Igreja, a Deus! Um testemunho após o outro e lá estava ele... pronto a narrar as suas fragilidades. E nós, éramos todo ouvido - prontos a tocarmos, com o que tínhamos e podíamos, a sua dor, as suas delicadezas, as suas frustrações!

E foi assim que descobrimos que ele estava com quarenta e quatro anos de idade, àquela altura. Mas, desde cedo, descobriu a sua vocação para amar o mesmo sexo: ele gostava de garotos. Porém, desde a sua infância, não sabia lidar com tal desejo. Tinha vergonha! Por isso, sempre tentou esconder de todos tal sentimento, tal apelo de sua própria carne. Para aniquilá-la de uma vez por todas, entregou-se à Igreja cristã com o objetivo de encontrar um antídoto para a sua dor, para si mesmo. Ele entrou a uma caverna escura e fria achando que era o céu!

Nos primeiros dias enquanto convertido ao cristianismo, tudo foi conforto, pois ele pensou encontrar o remédio. Nas semanas seguintes, todo o sentimento de homossexualidade estava camuflado, cercado e reprimido. Assim, ele "sentiu-se" curado. E com esse sentimento repousando sobre o seu colo, ele seguiu com a sua vida.

Ao decorrer dos tempos, tudo estava indo bem, pois ninguém o perturbava. Dizem que "tudo o que é bom, dura pouco", assim foi com ele quando vieram os comentários cristãos: "esse rapaz não vai se casar. Já está em idade avançada, não?".

Jogaram um balde de água gélida nele. Pois, passar a vida sem um relacionamento "normal" era fácil, mas com imposições por parte dos irmãos, era pedreira!

Comentário após comentário e a sua caixinha existencial ia se enchendo. Chegou um momento em que ele já não sabia mais o que fazer e, por isso, explodiu, visto que não sabia esconder que não tinha inclinações para meninas. Para ele, o beijo delas não tinha sabor ainda que experimentasse!

Diante de tudo isso, qual decisão ele deveria tomar?

Sair da Igreja não poderia, pois os sentimentos reprimidos viriam à tona com força e o sentimento de que Deus podia o castigar por sua vocação sexual, era presente. Continuar e aceitar a namorar - por aparência - a uma mulher também não seria possível, haja vista que não tinha inclinação natural para tal. Sim... ele estava num dilema... numa profunda crise de existência.

Diante de toda essa crise, ele só enxergava uma saída. E ela estava no colo da morte. Não tinha outra escolha. Se ele corresse, o bicho pegava. Se ficasse, o bicho comia. E foi assim que ele resolveu escrever uma carta de adeus à sua mãe explicando tudo o que estava escondido em seu ser, tudo o que estava o matando a lentos golpes de facão.

Ele não queria mais sentir a dor do dilema!

Após ele narrar os versos escondidos na carta de sua futura morte, a sala de jantar estava pálida, calada e, por alguns segundos, tudo pareceu escuro. Ninguém sabia o que fazer, o que falar ou qual conselho dar.

O que iríamos dizer... Pois, Deus dará a vitória? Que Deus cura todos os males? Que preenche todos os espaços? Que Deus age silenciosamente? Que há um propósito para todas as coisas debaixo do céu? Que ele deveria jejuar com mais vigor?...

Determinados clichés são ultrapassados e não servem mais. E foi naquela sala de jantar que compreendi que há momentos em que o silêncio é a alma do negócio para as relações inter-humanas. Ele fala mais do que a gente. E naquele momento ele sussurrou que todo argumento angelical foi esgotado!

Enquanto permanecemos em silêncio, ele resolveu confidenciar-nos qual o conteúdo da carta. O silêncio da sala de jantar fazia barulho. Mas, o seu pedido a Deus e o seu desabafo a nós, fez ainda eco: "apos todo esse tempo de jejum, oração e devoção... pra quê? Pra nada? Por que Deus não me curou?".

Após o término da pergunta, alguns cristãos começaram a chorar, enquanto outros não sabiam onde a cabeça colocar. Ninguém tinha respostas prontas. O silêncio era o colo onde todos nós estávamos confortáveis. Mas, desse colo, o homossexual, tirou-nos, pois ao termino do testemunho, ele trouxe a boa nova: "aprendi a aceitar-me, haja vista que Jesus entende mais de gente do que a gente".

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