domingo, 3 de janeiro de 2016

COLO DE MÃE É SAGRADO!

                                    
Há lembranças que nunca irão morrer, uma vez que, de um jeito ou de outro, as nutrimos sempre! Há memórias que ficarão presas - como um quadro - na parede de cada existência por muito tempo. Hoje, porém, pretendo retirar a cortina de diante da minha existência e expor parte do quadro da minha vida.

Chega de poeira. É hora de limpar os pés. É hora de tirar as sandálias. Pois, colo de mãe é sagrado. É, pois, para ela que tiro as minhas sandálias. É pra ela que me curvo em forma de respeito. Mãe, permita-me? Pois, após muito tempo, abro o meu baú existencial pra escancarar uma das minhas maiores vergonhas - o preconceito e a intolerância enquanto filho!

Lembro-me de muitas coisas em minha infância conturbada. Inclusive de quando alguns amigos feriam-se. Quando tais acidentes ocorriam, as suas mães logo corriam para fazer os devidos curativos para estancar o sangue e não inflamar os ferimentos. Com tais atitudes as mães não curavam somente os machucados, mas, através do cuidado, faziam cafuné. Fazer curativo é um jeito de fazer carinho.

Todo esse carinho perturbava-me, haja vista que a minha mãe não me fazia cafuné desse modo. Por conta disso, a grama do meu coleguinha sempre era mais verde! Engano bobo... Pois, eu não tinha maturidade o suficiente para entender os diferentes cuidados. A vida é um jeito de cuidar e a minha mãe cuidava de mim de outro jeito. Ela oferecia-me outro tipo de colo. Um que era só seu. E o único que podia ofertar, dado a sua história de vida sofrida...

Quando machucava-me no amor, minha mãe mandava jogar os búzios. Quando perdia o emprego, minha mãe corria para o colo dos búzios. Quando ela estava com o coração apertado por algum problema existencial, mandava jogar os búzios. Os búzios faziam - e fazem - parte da vida dela e, por efeito, da dos seus filhos. Minha mãe sempre foi do candomblé. Eu sempre fui da Igreja. E você, caro leitor, já deve ter compreendido onde tudo isso terminou. E não foi em pizza. Mas, em feridas!

Num momento de minha história cristã, alertei a minha mãe que eu tinha vergonha da sua religião. De sua macumba. Por conta dessa afirmação, minha mãe ficou decepcionada, comigo. Ficou desolada e desencantada! Por isso, ficou sem conversar comigo, como mãe, por um tempo. Tempos depois, ela retornou... E, desde então, nunca mais esqueci a sua resposta ao retornar: meu filho, você ainda é muito novo para entender a vida, para entender a religião. A vida é sagrada. E do sagrado você ainda não entende. Quando jogo os búzios, não quero te ofender. Apenas quero cuidar de vocês. Muitas mães cuidam dos seus filhos aqui e agora. Sou tão preocupada que quero cuidar de você no futuro. Porque no aqui e no agora, vocês têm possibilidades. O candomblé só é mais um jeito de eu te dar colo, carinho. Um colo espiritual. Um colo do futuro... Porém, só no futuro você entenderá que cada mãe tem um jeito de cuidar!

E foi assim que entendi que a minha mãe ensinou-me duas coisas para toda a minha vida: a ser tolerante com a religião do outro e a ser educado. O grande problema foi que não aprendi isso na igreja. Nela, aprendi a ser intolerante, mal educado... Minha mãe, com o seu jeito de educar, foi e é mais parecida com um pastor do que os pastores com Cristo. Vai entender... O fato é que entendi. Entendi que cada mãe tem um colo sagrado e diferente para ofertar.

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