quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

BOM DIA, PASTOR!

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Era domingo de manhã. Mas, eu só conseguia pensar na parte da noite. Na minha adolescência cristã, os domingos atraiam-me mais do que qualquer outra coisa. Até o futebol, tão sagrado, perdia espaço para a Igreja. Nada tinha mais valor do que ela. A igreja era território sagrado. Lugar de tirar as sandálias.

Quando o relógio badalava às seis e meia da noite de domingo, os meus joelhos dobravam-se como ritual numa das cadeiras da Igreja. Lá, era o meu canto. Ali, era o meu refúgio. Nela, reduzido a joelhos, sentia-me confortável. Sentia-me no meu céu terreno. Quando me levantava era porquê os louvores estavam tocando os nossos corações e a liturgia de domingo estava prestes a iniciar.

Quando o primeiro louvor dava as caras, já era sinal de portas abertas. Deus abria a sua porta através da palavra cantada e sentava entre nós para ouvir os nossos corações... O louvor, a palavra cantada, faz Deus sentar-se entre nós: entre os perdidos, os moribundos, os sujos, entre os maltrapilhos... E, pra quê? Pra se sujar!

Enquanto os louvores faziam as lágrimas rolarem nos rostos simples, eu sentia que Deus sujava-se. Não existe outro modo de Deus nos limpar senão pela sujeira. Foi assim que conclui que Deus é uma faxineira sem vergonha! Pra que vergonha? Vergonha é sentimento que Deus não habita. Vergonha é sensação pra homens. Deus é além-tudo!

O fim do terceiro louvor anunciava que a palavra de Deus, através dos homens, estava por começar. E, entre uma oferta e outra de graça, as informações semanais eram divulgadas. Nesses momentos, sabíamos de toda a programação da igreja para o futuro da semana. Sabendo disso, já anotávamos em nossos "caderninhos teológicos".

Sempre cooperei muito com as tarefas da igreja, pois achava que, através do serviço, Deus podia habitar em mim. E foi em meio aos momentos das ofertas que o pastor titular da Igreja, alertou: "quem pode vir limpar a Igreja amanhã para que ela fique limpa para o resto da semana?".

Sem pestanejar, dois amigos e eu nos dispomos. Porém, como a igreja era grande demais, ele insistiu com o alerta: "apenas três jovens não darão conta do recado. É necessário mais". Após alguns segundos, lá estavam disponíveis mais algumas pessoas e, assim, o quadro de colaboradores estava completo. Após algumas recomendações pastoris, iniciou-se a ministração da palavra.

Com essa mistura de lembranças, recordo-me do poeta Rubem Alves quando afirmou: "a palavra é a casa de Deus". E foi assim que entendi que sou morada de Deus, pois sou palavra. Todos somos. Todos somos habitações onde o divino faz-se vivo. E o divino, naquele culto, pairou sobre o templo através das palavras. Mas, sentou-se ao nosso lado como criança brincando de balanço. O verbo não se fez carne naquele dia. Fez-se balanço. Deus estava feliz e se balançando conosco.

A ministração foi cheia de Deus. Por isso, elas encheram-se de Deus. Ao saírem da igreja, foram para as suas casas, recheadas de Deus. No caminho, cada passo lembrava o culto, lembrava a Deus... Mas, para quê? Para se esvaziarem Dele, no outro dia, devido a uma simples ausência de: "bom dia"!

Na segunda-feira todos os compromissados chegaram no horário. Porém, o pastor não estava lá. Ele chegou bem depois. E quando chegou, passou pela porta, cruzou a nave da igreja e não deu sequer um bom dia a ninguém!

Meus colegas e eu nos olhamos e apenas balançamos os ombros como que dizendo: "ele está num dia mal". Porém, tais ações se repetiram por algumas vezes. E foi assim que descobrimos que ele tinha mania de grandeza, uma vez que nos cultos ele se fazia humilde e servo, mas, na vida comum, fazia-se grande e orgulhoso!

Ao longo da minha pouca vida cristã, percebo que discurso e prática não são retratos de beleza para pastores habitarem. Os seus retratos cabem apenas em museus como o Louvre. Pois, não amam ser pendurados em qualquer parede. Diferentes de Cristo que cabem em qualquer espaço-parede.

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