segunda-feira, 26 de outubro de 2015

NIETZSCHE: UM REMÉDIO MUSICAL PARA UMA VIDA TRÁGICA.

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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu que "a vida humana não é possível sem música". Estamos certos de que Nietzsche tinha um modelo musical bem definido quando citou esta frase. Até mesmo porque ele era fascinado por música clássica; sobretudo a música de Richard Wagner, um talentoso músico do século XIX.

Nietzsche associava com frequência, em seus livros, a música à vida porquê ela tinha e ainda tem, abraçado a ela, um fator trágico, isto é, um fator de finalização, de finitude e de morte, inseparável; enquanto que a música - a partir de um conjunto de notas, acordes, instrumentos... etc - transmite a salvação, o consolo, a resposta e um remédio terreno para uma vida recheada de pequenas tragédias.

De acordo com Nietzsche, é possível afirmar que o "grude" da vida é a morte. Porém, antes da finalização da vida, é possível utilizarmos um remédio para esse "chiclete". É permitido e com frequência, recorrermos à música com a sua potência de cura terrena para nos consolar, sentirmos alegria, tristeza, amor fati... etc. A música, em geral, permite-nos sentarmos com a vida e ao lado de cada sentimento, positivo ou negativo, que a mesma oferta e esquecermos das preocupações niilistas.

Nietzsche não estava e não está errado quando se trata de música - seja qual for o modelo. Primeiro porque ele admirava música clássica e, por isso, compôs uma sinfonia inteira. Segundo porquê ele foi o primeiro filósofo a demonstrar-nos a música, enquanto médico para a alma em busca de salvações além-mundo.

Diga que não é verdade que a música "salva"-nos em diversos momentos problemáticos (ou não) da vida?

Quando estamos tristes, corremos aos braços de um modelo de música, seja para curar ou fortalecer a dor. Quando nos dedicamos à prática de exercícios físicos, recorremos às músicas que nos incentivam mais a alcançar nossos objetivos. Para amplificar ou aquecer os prazeres da carne, rapidamente pensamos na canção que melhor nos tocará, melhor nos favorecerá ou melhor nos motivará, de um jeito ou de outro, nesse momento dionisíaco.

Nietzsche é reconhecido como "filósofo da suspeita", uma vez que o mesmo, quando vivo, suspeitou, do que há por detrás, dos grandes sistemas filosóficos. E de acordo com Nietzsche, há muito pré-conceito. Foi bom termos filósofos da suspeita no panteão dos grandes pensadores, pois, além deles demonstrarem as suas visões trágicas sobre os grandes temas da filosofia, demonstraram-nos, também, as suas posições particulares. Isso é fundamental para o leitor que pretende formar a sua própria opinião no futuro.

Só quem suspeita de tudo e de todos (no caso Nietzsche) veste óculos de desavença, de inquietação, de a-sistematização e de discordância. Pela sua suspeita e inquietação frente ao universo intelectual dos pensadores mais eminentes, convidou-nos a vestir óculos de música, isto é, de salvação terrena, de consolo, de remédio, para uma vida demasiadamente trágica e, por isso, humana.

Portanto, Nietzsche finaliza com a seguinte interrogação: "para que respostas metafísicas e niilistas para a vida e os seus problemas se temos a música como remédio?".

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O DESLIZE DE SÓCRATES.

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Platão é o fundador da Filosofia Antiga. Conquistou esse adjetivo porquê foi o primeiro filósofo a pensar a filosofia de modo metodológico - ele criou a Dialética. Esse modelo de pensamento era inexistente até então, mesmo porque a preocupação dos filósofos, anteriores a Sócrates, destinava-se à natureza. Portanto, filósofos engajados com os problemas naturais que, outrora, eram explicados pela Mitologia Grega.

A Dialética de Platão é um modelo de pensamento cujas perguntas e respostas visavam alguns objetivos: "fazer o interlocutor amadurecer intelectualmente, politicamente e/ ou moralmente com vistas à verdade para o uso social". A sede de Sócrates pela verdade foi a grande responsável pelo seu "suicídio", defendia o filósofo Alemão, Friedrich Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos.

Uma das mais famosas obras de Platão é a Apologia de Sócrates. Nela, o filósofo explica os problemas que Sócrates enfrentou perante o tribunal político de seu tempo. Devido o uso excessivo de seu método dialético - para ensinar a juventude ateniense a buscar a verdade - acabou sendo acusado, sentenciado e morto por não acreditar nos Deuses do seu Estado, bem como por corromper a juventude que estava, por sinal, dando muito trabalho aos líderes, Meleto e Anito.

Esses líderes foram os responsáveis por caluniar a Sócrates. Ele, por sua vez, defendeu-se com inteligência, rigor e lógica. Contra a acusação de que corrompia a juventude, Sócrates discursou: "corromper é fazer o mal. Fazer o mal afasta as pessoas. Os jovens, pelo contrário, não se afastaram; mas, se aproximaram de modo a tornarem-se melhores intelectualmente".

Contra a acusação de que o filósofo não acreditava nos Deuses da cidade, Sócrates valorizou os ensinamentos do Oráculo de Delfos que afirmava que ele era o homem mais sábio da cidade. Sócrates valorizou o Deus. Por isso, venceu.

Ao decorrer da Apologia, é notório perceber que Sócrates abate os seus opositores. Mas, rende-se aos mesmos, a fim de - como ensinavam Nietzsche - deixar-se matar, pois almejava um tipo de pesquisa alem-mundo. A notícia de que Sócrates iria tomar a cicuta espalhou-se e desestimulou os seus discípulos, a ponto de eles reunirem-se para pagar a sua fiança ou planejar uma fuga.

Justo e ético como sempre foi, Sócrates prontamente recusou. Tal atitude, por sua vez, entristeceu ainda mais os seus discípulos. Mesmo assim, eles não fugiram deixando Sócrates na mão. Mas, permaneceram, aprendendo na prisão. E foi nela onde Sócrates compôs o seu conceito mais bonito sobre a morte. A pergunta, então, é oportuna: "como Sócrates conceituou a morte?"

De acordo com o final da "Apologia", Sócrates define a morte como "ausência de sensações". Tal conceito demonstra o seu brilhantismo ou o seu deslize? Esse é o melhor conceito já escrito sobre a morte porquê, a partir dele, pode-se entender e visualizar, por exemplo, as pessoas em caixões. Portanto, inabilitados ao uso dos seus sentidos, das suas sensações, dos abraços - quem não abraça a ninguém sempre estará morto.

Localizamos, enfim, o deslize de Sócrates. O filósofo preocupa-se apenas com o conceito universal da morte. Sócrates (Platão) fez da morte uma formula e, por isso, não teve tempo (ou não quis) de pensar a dor que ela causava, que ela transmitia, transmite a quem fica no universo dos vivos. Conceituar a morte é extrair da mesma a dor.

Quando o filósofo revelou-se preocupado com a fórmula, deu de ombros à dor alheia. A dor não coube no pensamento de Sócrates. O filósofo preocupou-se tanto com o conceito e com a verdade que se esqueceu da sensibilidade e das pessoas. Sócrates perdeu-se num mar de verdades e conceitos. Não de pessoas!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

QUAL O TAMANHO DA DOR DE UM SUICIDA?

Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver - Epicuro, Carta sobre a Felicidade.

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As perguntas: "por que viver, ao invés de morrer e por que morrer, ao invés de viver, eram frequentes em minha adolescência, conturbada. Nesse período, a vontade de suicídio manifestava-se com mais força sobre a reduzida vontade de viver. Em meio ao caos existencial daqueles tempos - pouco tinha sentido para viver.

Quando jovem, mal sabia lidar com esse forte apelo ao suicídio; também não o comunicava a ninguém, dado o tamanho da minha vergonha. Após algum tempo e por acumular experiências importantes no tecido da vida, esse sentimento foi sendo martelado e perdendo força de modo a alcançar o status de dormência.

Com o passar dos tempos, descobri, em mim, uma vontade louca de entender a vontade de suicídio. Por isso, pus-me a investigar livros, artigos, filmes, documentários, pessoas e até a mim mesmo. Nesse tempo, encontrei poucas respostas, tendo em vista a quantidades de perguntas. Dentre as tantas, uma sempre esteve em minha cabeça: "qual o tamanho da dor de um suicida?". 

Porém, outras perguntas vivem esparramadas pela minha sala existencial: por quê e para quê se suicidar? Qual a intencionalidade do suicídio? O que quer aquele que pretende a morte de si mesmo? Algo ou nada? Como, aquele que fica para trás, deve lidar com a morte do próximo, do ente querido? O que quer demonstrar aquele que se suicida? Por que viver é mais agradável do morrer? Por que achamos mais dignos aqueles que vivem, ao invés daqueles que morrem? Quem transmitiu esse sentimentos aos homens? Com quais intencionalidades? ...

Para responder a todas essas perguntas, certamente, seria necessário duas ou três vidas, ao invés de uma só. Além do mais, seria preciso uma investigação profunda e ininterrupta acerca de alguns universos particulares. Como não temos três vidas, seremos diretos: uma boa dose de dor e sofrimento são o suficiente para surgir a inclinação ao suicídio. Muitos suicidas cometem tais atos por desilusão - seja amorosa, conjugal, trabalhista, empresarial ou por bullying.

Por conta de tais sofrimentos, pessoas rendem-se aos braços da destruição pessoal em busca - não da morte de si mesmo - mas do alívio existencial. Portanto, a morte é um alívio para uma existência conturbada.

Se tal atitude é correta ou não; se é pecado ou não; se, quem cometeu tal atitude, vai para o inferno ou não; se Deus vai julgar o suicida ou não... não cabe a nós - os que ficaram. Só poderíamos julgar a essas pessoas quando tivermos a capacidade de compreendermos o tamanho das suas dores. E, para isso, somos incapazes, posto que não enxergamos o mendigo esparramado sobre a calçada, quanto mais... compreender a dor de um suicida.