quarta-feira, 18 de março de 2015

O POETA E O FILÓSOFO.

Nossos pais, numa dessas viagens familiares, contaram-nos que as nossas diferenças começaram em nosso nascimento. Hoje, as diferenças continuam. Pois, sou poeta. E ele, filósofo! Numa dessas conversas de tarde com a minha mãe, ela confidenciou-me que ele deu trabalho para nascer. O parto foi duro, dolorido e suado. Será que ele era um bebê gigante? Pelo que minha falou, sim. Sua cabeça, ao nascer, denunciaria o tamanho da sua inteligência quando velho. Na escola, onde ambos estudamos, ele sobressaia-se em, quase, todas as matérias e as suas notas, carimbadas, demonstravam as notas "dez" em suas provas. Era bonito. Porém, tímido. Com a sua aparência, fazia sucesso com as garotas. Mas, logo elas distanciavam-se. Pois, a sua inteligência aguda o deformava frente a todos e a todas. 

Por quê? Ela sempre chegava primeiro, ao invés dele. Inteligência, sem dúvida, é primordial. Mas, quando não se sabe usá-la, vira uma tragédia grega. A sua boca exalava conceitos - dos antigos aos modernos. Para ele, a beleza dos campos de lavanda, só existiria se coubesse numa forma conceitual. Para os poetas, isso representa uma tragédia! 
Quanto a mim, nasci sobre os braços do outono, num clima agradável e numa tarde calma sem dores de parto. Talvez, esteja aí o início das nossas diferenças. Será? Nunca compartilhei essa minha ideia com ele porque, primeiro, ele ficaria desconfortável com a mamãe por ter contado-me sobre o seu nascimento num tom pretensioso. Ele sempre foi desconfiado. E, segundo, ele nunca acreditaria que o momento do nascimento influência na personalidade - do nascimento à vida adulta. 

Afinal, ele é um filósofo cético. Desses que não acredita em nada e que dúvida de tudo! Só acredita nos fatos. Sem contar que faria-me dezenas de milhares de perguntas, do tipo socrática! Que tédio!  Cheguei a essa conclusão devido às nossas últimas conversas sobre diferentes temas. A última vez que, juntos, fomos à praia, deparei-me com uma tarde espirituosa onde o sol não bebia toda a água do corpo. O sol abraçava as nuvens que emanavam um mix de cores vivas - parecia que fora pintada por Van Gogh. Todo esse esplendor de cores, convidativas, estava suspenso, como uma bola de futebol, sobre a linha do horizonte. Emocionei-me e as lágrimas, rapidamente, alcançaram o seu porto seguro. 

Por conta desse momento, disse a ele que se aquilo não fosse a beleza, que ela fosse embora, pois, sem medo, ficaria com aquela paisagem, com aquela beleza. Mas, ele, na contra-mão, decepcionou-me com o seu jeito filósofo de ser.

- Está emocionado? Isso não é e não pode ser a beleza, dado o fato de que a beleza deve ser conceitual! E, enquanto conceito, a beleza não pode ser e deixar de ser. E, por ser, é necessário uma definição. E ela, segundo o primeiro princípio de razão, tem de ser e não pode deixar de ser. O conceito, segundo Aristóteles, contém o universal. Ele, por sua vez, é a reunião do geral imerso no particular. Desse modo...

Enquanto ele, em sua cadeira, explicava metodicamente a filosofia aristotélica, eu deliciava-me com aquele mix de cores vivas que me convidava a respirar como se fosse a última vez - antes do apagar das luzes da vida! Às vezes, desconfio que o filósofo renomado e do calibre do meu irmão, tem medo de deleitar-se no devir que toma, com brutalidade, o homem pelos braços e força-o a viver sem medo e sem prisões. Não é a toa que, noutro momento, quando estávamos entre amigos e o tema "mal" surgiu, ele logo tratou de gritar da esquina do corredor da casa.

- Vê se não confunde poesia com o conceito de maldade. Nele, não há nada de estético ou poético!

Com esse grito de terror, ele castrou-me. E a minha liberdade, como um coco seco, evaporou. 

Para falar a verdade, talvez, até entendo o seu jeito cirúrgico de pensar, de falar e de, em sua vida, atuar. Acho que é medo! Do que?

- De tudo não caber dentro de um conceito!

A MENTIRA DO PROGRAMA ESQUENTA.

Domingo, dia 28 de dezembro de 2014, o último programa "Esquenta" - cuja apresentadora é Regina Case - foi ao ar com a temática réveillon. Ao som de Lulu Santos, Preta Gil e Péricles a festa estava armada. O humorista Marcelo Adnet, também, fez-se presente. O último programa ocorreu com requinte e elegância. E é aí que reside a questão fundamental, a problemática do atual texto: como um programa - como o "Esquenta" - que tem como o seu emblema "a periferia", portanto, a pobreza, mente sem vergonha para o seu público? 

A apresentadora Regina Case - desde o seu surgimento e reconhecimento enquanto apresentadora (às vezes, repórter, atriz, entrevistadora...) de televisão - trabalha com os pobres. Ou, eufemisticamente, com os menos favorecidos. Basta fazer a mínima pesquisa na internet e, então, confirmarás. No entanto, onde, porém, está a mentira do programa "Esquenta", uma vez que a mesma ajuda os pobres e traz o olhar da classe média para as favelas? 

Está desde o nascimento do "Esquenta", visto que a cada programa os menos favorecidos - grande parte das favelas do Rio de Janeiro - foram sendo transformados. Entretanto, a sua representação da "pobreza carioca" foi mantida. Antes de mais nada, fique claro que subir de status social ou decair não há nenhum problema - pelo menos para mim. O problema - a meu ver - está em não aceitar as suas verdadeiras condições sociais - seja a, b, c ou d, e migrar para uma representação de classe média. 

Trabalhemos, pois, a nossa percepção sobre o programa e a partir daí cheguemos a uma conclusão. Porém, tal ideia só ficará clara para quem acompanha o programa. Desde o surgimento do programa "Esquenta", a apresentadora escalou diversas pessoas para compor o quadro de seu programa. No início, ela já propunha um mix de famosos e "desconhecidos". Os desconhecidos - no começo - compunham a maior parte do programa. Se observarmos atentamente os participantes do seu programa, do início até hoje, veremos uma negação da pobreza e uma valorização da classe média. 

Ao começar pela "chamada do programa", víamos uma precoce desorganização e uma falta de beleza. Com os dançarinos não era diferente. As suas peles - era nítido ver - não eram bem tratadas. Os seus cabelos não eram bem cortados, escovados e hidratados.

Tudo isso demonstrava conclusivamente que programa de pobre é semelhante a casa da mãe Joana: uma bagunça só! Ledo engano, pois, ao decorrer dos tempos, o projeto "Esquenta" foi transformando-se até ganhar uma cara classe média consolidada: da vinheta aos calçados. Assim, pode-se concluir que o programa "Esquenta", do início ao fim desse ano, negou a pobreza e valorizou uma imagem de classe média. Enfim, o programa Essssssquenta não é mais para os pobres. Pois, a classe média já dominou o seu espaço.

terça-feira, 17 de março de 2015

DIZER A VERDADE É UM DEVER MORAL OU UM GRANDE ENGANO?

O que quer o homem que diz: eu procuro a verdade?

Gilles Deleuze.


Para que e por que a verdade?
Friedrich Nietzsche


A verdade não passa de um duelo de perspectivas!
Max William


A história da Filosofia é tão extensa quanto o mundo. E por sua história ser demasiadamente ampla, podemos visitar e revisitar- hoje ou a qualquer momento histórico - grandes discussões que se localizaram e se localizam em seu seio. Em todos os períodos da história da Filosofia, muitos problemas foram erguidos e debatidos. Alguns persistiram, enquanto outros se perderam no tempo como poeira que se espalha pelos ares quando o vento sopra. O fato é que o problema relacionado ao conceito de VERDADE persistiu causando debates acalorados.

Ao longo da história da filosofia, pensadores desenvolveram suas reflexões acerca da VERDADE e, portanto, demonstraram ao mundo o quanto concordam ou discordam sobre esse conceito. Sendo assim, podemos compreender que a VERDADE foi debatida e interpretada de diferentes maneiras, por diferentes filósofos e por diferentes teólogos. Tal discordância acerca da ideia de VERDADE pode ser visualizada e compreendida através do pensamento de Immanuel Kant – Filósofo do século XVIII - bem como nas reflexões de Friedrich Nietzsche – pensador do século XIX.

Kant escreveu um “texto” chamado Sobre Um Suposto Direito de Mentir em Prol da Humanidade, onde respondeu a Benjamin Constant que "dizer a verdade é um dever moral". Além do mais, de acordo com o mesmo, "é uma obrigação executar tal dever a qualquer momento e em qualquer circunstancia". Portanto e grosso modo, a VERDADE - de acordo com Kant - é um dever moral inquestionável, inegociável e inviolável. Distante do modo radical de pensar e agir de Kant, encontra-se Friedrich Nietzsche. 

Nietzsche tornou-se conhecido por "filosofar a marteladas". Tal frase tornou-se famosa devido às suas duras criticas à filosofia, a moral e aos preconceitos filosóficos. Sua “dureza de pensamento” pode ser compreendida em sua obra Além do Bem e do Mal, onde fez uma intrigante e pesada interrogação sobre a ação moral: "dizer a verdade salva a vida?" Tal pergunta de Nietzsche nos conduz a pensar em casos concretos que a verdade – quando dita – não salvou, não a tirou do perigo e, ainda mais, a prejudicou.

Recentemente encontrei-me com um colega de infância. E, por isso, pus-me a pensar sobre os meus momentos de mocidade onde meu colega, eu e tantos outros nos divertíamos muito. Andávamos de bicicleta para baixo e para cima. Dedicávamos os nossos momentos – "depois da escola" – exclusivamente para as magrelas - nossas bicicletas. No entanto, o tempo passou. Igor e eu nos afastamos. Cada um foi para o seu lado. Mas, por “ironia do destino” nos reencontramos. Logo, matamos a saudade e colocamos "os papos em dia". 

Após um período de conversa, Igor disse-me que havia separado de sua jovem esposa e que a ocorrência havia o deixado completamente devastado. Igor errou com sua esposa. Pois, cometeu algo imperdoável pelas mulheres - o jovem traiu a sua doce esposa. E quando questionado sobre a suposta traição, disse a VERDADE. Confirmou a traição. Devido à consciência moral do DIZER A VERDADE, Igor recebeu – em retribuição – o castigo do vazio, da solidão, da depressão e da separação. Sua esposa foi-se. 

Dizer a verdade o salvou? Pelo contrário, o castigou. De acordo com Kant, Igor cumpriu com o seu DEVER MORAL! Disse a VERDADE - mesmo sabendo do perigo que estava correndo. De acordo com Nietzsche, talvez, era necessário balancear o que iria dizer. Pois a VERDADE – nesse caso – não salvaria a sua vida, muito menos o seu casamento! Portanto, qual das teorias acatar? Qual experiência intelectual escolher? A teoria de Kant? A dura pergunta de Nietzsche com um fundo de verdade? Ou o trágico fim do jovem Igor? Eis a questão, caros leitores: dizer a verdade ou não?

domingo, 1 de março de 2015

PERDÃO!

Senhor, perdão. Mas, cá estou.
Sou maltrapilho perdido. 
Mas, na brincadeira de esconde-esconde da vida, o senhor sempre acha-nos.
O senhor é um expert em nos encontrar.
Seja atrás do amor, da dor ou do torpor. Seja onde for.
Não importa o local, a circunstância, o momento ou o estado em que nos encontramos. 
Você sempre diz na brincadeira de esconde-esconde: "um, dois, três - te achei! E, agora, tá com você. É a sua vez de me procurar". 
Nessa brincadeira entre terra e céu, o senhor sempre nos acha para depois te acharmos.
Que momento belo, inquieto e espantoso!
Espantoso, porque você sabe esconder-se tão bem que é só por meio da oração que podemos encontrar-te.
E é exatamente por isso que cá estou, na escuridão do esconde-esconde da vida e pronto para ajoelhar-me com o objetivo de quem quer conversar:
- Senhor, dai-me discernimento para lidar com os fantasmas da racionalidade que, com o lápis, o rabisca com os traços do NÃO EXISTE.
Senhor, dai-me coragem para, com verdade, saltar no escuro da existência e saber que em seus braços, seguramente, cairei.
Senhor, ajuda-me a enxergar, nas pessoas, o seu lado cristão. Pois, só vejo o que há demasiadamente anticristão, humano.
Senhor, dai-me forças para enxergar-te na natureza, nos homens e nos animais, visto que sei e bem, que nelas não estás mais. Pois, segundo Agostinho, o senhor é o sumo bem, o incorruptível.
Senhor, dai-me forças para relacionar-me bem com os meus irmãos, uma vez que, às vezes, vejo que eles(as) são irmãos da boca para fora!
Senhor, dai-me óculos para te enxergar, dado o fato de que aqui está escuro, neblinado e embaçado. A colisão é certeira.
Senhor, aqui, no andar debaixo, na (da) vida, tudo colabora para que não sejamos os seus espelhos, discípulos e representantes.
Diferente de João, que certa vez disse que não era digno de amarrar as suas sandálias, ouso ir mais longe. Por isso, Senhor, peço-te que venha a nós e encontre-nos no imenso labirinto existencial que estamos. Nele, estamos perdidos. E só o senhor pode conduzir-nos ao caminho para nos encontrar-te encontrar!