quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

VOCÊ CHORARIA POR ELE OU DARIA GRAÇAS A DEUS?

Diariamente tomo o meu jornal, vou para uma das praças onde moro e debruço-me sobre a leitura, pois tenho tempo e de sobra. Sou professor universitário, aposentado. E, como todo professor que se presa, amo ler. Outrora, tinha de ler e preparar rápido as minhas aulas a fim de cumprir as minhas obrigações profissionais. Hoje, graças a Deus, as leituras aceleradas não fazem mais parte da minha rotina de vida. Atualmente, leio, seja o que for, com os dois pés no freio no intuito de compreender o que está escondido, encoberto e velado. 
Na estação passada, vim poucas vezes a essa arborizada praça - nossa, como fez calor no verão passado! Foi sobre essa estação quente que percebi o quanto o mesmo inibe a leitura. O calor, pelo menos para mim, é inimigo da leitura e amigo da preguiça.  O fato é que o inimigo fugiu com a chegada do outono e a fome pela leitura reapareceu. Hoje, no parque, sobre esse clima ameno e saudável, pus-me a refletir sobre uma crônica policial. 
A mesma narrava a morte de um homem de quarenta anos, dono de uma conhecida padaria em São Paulo e, por não vender fiado a um estranho, foi brutalmente assassinado, às cinco da matina, quando abria o seu negócio. Levou cinco tiros à queima roupa. Sua camisa que outrora era branca como a neve, recebeu as cores da morte! As imagens transmitidas pelo jornal e o depoimento de sua esposa chocaram, comoveram e emocionaram todo o Brasil - de norte a sul. 
A viúva, com lágrimas no rosto e abraçada às suas duas filhinhas, sem pai, declarava que a vítima era o melhor pai do mundo, era o melhor esposo, era um competente trabalhador, nunca deixou nada faltar em casa e, por isso, não merecia morrer desse jeito. A crônica era clara, o assassino tinha de pagar pelo seu crime de modo a ser julgado, preso e condenado! Em meio a expressivo estilo jornalístico, um desconforto saltou - como um peixe fora d'água - em minhas mãos: aquele crime, de acordo com os policiais, não poderia ser solucionado, dado o fato de que nenhum pedestre passou pelo local,  nenhuma câmera capturou as cenas, nenhum curioso filmou e nenhuma testemunha gravou - Inacreditável, num país conectado! 
Só posso concluir que o nada foi a sua única testemunha. Mas, amordaçada, apenas observava. Não é de espantar-se se esse criminoso receber o visto de crime perfeito através dos noticiários diários. Tal retorno o deixará completamente feliz. Na realidade e desde que me entendo por gente, não existe crime perfeito - isso é o que a minha experiência de vida me ensina. Nas tardes literárias e levemente frias, não consigo parar de pensar nas possíveis histórias que deram origem a esses crimes. 
São dessas divagações que surgem as minhas primeiras reflexões sobre o caso: e se esse criminoso fez um bem para a sociedade ao matar esse homem? E se ele executou a lei de modo silencioso, no sapatinho, visto que estava cansado dessa segurança paulistana inútil que não resolve, de fato, os problemas criminais? E se, por esses e, talvez, outros motivos, resolveu tornar-se um justiceiro?
Ao levantar a minha cabeça,  observar a pálida paisagem à minha frente e coçar os olhos devido à falta de lubrificação, só posso deduzir, de antemão, que essas interrogações não passam de simples reflexões solitárias. Olha, mesmo que sejam reflexões de praça, e se descobríssemos quem é o criminoso? E se ele viesse a público e, portanto, confessasse o crime doloso? E se se declarasse, numa entrevista nacional, culpado; mas que assassinou o simpático, singelo e doce pai de família, devido a ele fazer parte de uma quadrilha especializada de prostituição infantil que rapta, dopa e escraviza garotinhas a fim de praticar crimes sexuais? 
E se o assassino tivesse descoberto todo esse esquema devido a uma ligação anônima? E se, por meio dessa ligação, ele descobrisse que a sua filhinha, Cindy, seria a próxima vítima e, por isso, decidiu arquitetar um plano para executar o aliciador de modo a não deixar pistas, uma vez que as autoridades não iria o prender por falta de provas? De acordo com o jornal, praticamente, todo o país se comoveu e chorou por ele. Porém, e se fosse verdadeira todas essas suposições sobre o assassino, você choraria pela morte dele ou daria graças a deus por mais um pedófilo ter morrido? 
Enquanto queimava os meus neurônios ao pensar no que poderia estar escondido nessa estranha história, a leve garoa paulistana começou a beijar o meu jornal e atrapalhar a minha leitura. Antes fosse só a garoa. A verdade é que o meu celular começou a vibrar sinalizando a chegada de uma nova mensagem: "amor, venha pra casa. Acabei de assistir na televisão que um homem, há pouco, foi sequestrado na praça onde você costuma ler". 
Assustado, rapidamente, levantei-me.  Com passos firmes e acelerados, cuidei para eu não ser o próximo. Porém, amanhã estou de volta e com o jornal de baixo do braço. Pois, sou paulistano e, como todos os outros, vivo constantemente entre o bem e o mal!

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