quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A DOCE OFERTA.

Quando criança tinha diversos sonhos. Me tornar um grande e notável bombeiro. Me tornar um corajoso policial. E, também,  me tornar um conhecido e renomado astronauta. Esse,  no entanto,  era o meu principal sonho. Ir à lua, observar tudo distante da terra e ver o quanto ela é pequenina de outro ponto de vista. Era para ser incrível!
Esse especial sonho de tornar-me astronauta,  porém,  foi brutalmente interrompido por um trágico acidente de carro e que deixou-me sentindo os sopros dos ventos de um ponto de vista baixo. Era noite de verão e decidi sair com alguns amigos para aliviar o calor e, aproveitar,  para me divertir. Todos nós marcamos na avenida Jean Paul Sartre, no bar do existencialismo. Como de costume. Assim, pus-me à caminho do bar. Como estava calor e sem trânsito,  decidi acelerar o carro para sentir o vento, com força,  bater em meu rosto naquela inabitável rua.
Todos os vidros estavam rebaixados e a sensação do vento soprando com força era de extrema liberdade. Ninguém poderia, naquele momento, deter-me. Nem a polícia! Eu era o comandante, o dono da minha vida. Eu era o  responsável pelo que, naquela rua,  cativava. Mas, até virar à esquerda e entrar à rua Fonte das Lágrimas. Diversas vezes passei naquela rua e nunca refleti sobre aquele nome. No entanto, quando, pela primeira vez,  comecei a pensar sobre aquele nome,  já era tarde de mais e estava paraplégico!
Foi naquele frio hospital, pela primeira vez, que acalmei meus ânimos e dei-me conta de que tinha acabado para mim. A aceleração dos motores,  deram lugar à forçada meditação budista. Pois,  segundo os médicos,  aquela seria a minha condição existencial para toda a vida! 
Conhecia-me e sabia que não conseguiria ficar vinte e quatro horas por dia dependente de uma cadeira de rodas e de toda a minha família. Sempre fui amante da liberdade. Porém,  ela divorciou-se de mim!
Quando regressei do hospital para a minha casa empurrado e sentindo o vento de modo inferior socando o meu rosto, pus-me à maquinar o meu fim. 
Pensei dia - após- dia uma maneira: ou de como retornar a andar ou à minha vida terminar. Em casa pensava: o sentido da minha vida não estava nas mãos da medicina,  visto que à mesma jogou-me para o ralo existencial por meio da sentença do juiz vestido de branco: "essa será a sua condição e daí não sairás, não!".
Sentença fria ou realista? O que fazer,  para quem recorrer? Deus,  Jesus,  Buda? Num desses habituais dias em que minha mãe fazia sua musculação ao me carregar para o pequeno parque da nossa vila, topei com uma cena desencantadora: um cadeirante praticando esporte como se fosse normal! Fiquei estressado, desorientado e rapidamente pedi para me levar de volta para a casa.  Não conseguia lidar com toda aquela representação de felicidade. Um cadeirante não poderia ser tão feliz como aquele se demonstrava. 
Não enquanto precisar ser carregado para onde quer que seja,  não enquanto precisar de ajuda para levantar,  não enquanto for o último a sentir o perfume no pescoço de alguém, não enquanto não sentir o seu singelo dedo transbordando sensação. 
Não, não, não: um paralítico não pode ser tão feliz, quanto aquele do parque, isto é, enquanto não puder erguer o seu próprio par de pernas. Olhe às ruas: até um cachorro pode andar. Todos esses pensamentos perturbavam-me enquanto regressava para a casa com a minha mãe. Não sentia-me em paz. Mas, como podia, uma vez que a minha mente estava em total guerra com o meu corpo? Desde a catástrofe, o meu corpo sempre vencia na medida em que o meu cérebro enviava correntes de comando,  mas meu corpo não correspondia, não falava, não gritava. 
Chegando em casa, atormentado com a cena, sentia-me em choque. Pedi para a minha mãe ajudar-me a deitar em minha cama. Vejam só, atitude tão simples e mal posso fazer. Inútil! Já na cama,  suando e em delírios, apaguei. Não notei. Mas, não sei se dormi ou desmaiei. O fato é que o canto das musas chegaram aos meus ouvidos por meio de um homem vestido totalmente de branco,  semblante atraente e de pele clara. Não parecia nocivo. 
Não calçava sapatos ou qualquer outro calçado. Ele estava descalço. Os cabelos estavam penteados para trás, como que lambidos por uma vaca. Entretanto, seu olhar era firme e penetrante. Antes de dirigir-se a mim com a sua proposta indecente,  observou-me por alguns instantes e - lembro-me bem - disse: 

- Você quer voltar a andar,  sentir o vento por cima,  tomar banho sem ajuda,  caminhar sem ser empurrado, correr novamente ou acelerar o seu carro? Basta,  então,  dizer que aceita-me como o seu senhor. E para ter certeza dos meus poderes, "levanta e anda".
Não sei como,  mas depois da ordem, senti novamente os meus pés. Eles formigavam. Sentia os meus músculos esticarem. pulsarem. Incrível,  pois podia movimenta-los.
Imediatamente pus-me a levantar. Mas, quando tentei tomar tal atitude, não conseguia.  Então perguntei:
- Sinto-os.  Mas, não posso levantar. O que está acontecendo? Quero desesperadamente levantar e andar. Você disse levanta e anda!
Foi quando ele exclamou:
- Você conseguirá andar novamente depois que disseres que, como seu senhor,  me aceitaras.
Sem pestanejar repeti as palavras mágicas:
-Sim,  és o meu senhor!
Assim,  o desconhecido senhor ordenou:  
- Agora pode levantar e andar. Mas, lembre-se que comigo a sua alma a partir de hoje, estarás.

Sem dar a mínima para o que ele disse, quando pretendi por-me de pé,  acordei pingando suor e aos prantos,  pois estava quase lá, quase levantando. Estava pronto para me realizar. Todo molhado de suor, sentia-me decepcionado! Foi apenas mais um suposto sonho de felicidade.
Porém, quando me acalmei, bateu-me, como um martelo prega um prego com força,  a consciência que tinha vendido, mesmo no sonho, a minha alma.
Agora, acordado e mais calmo, olhando para o teto e consciente, pergunto-me: será que por um par de pernas funcionando venderia a minha alma? Que pergunta dolorosa. Mas, a julgar pelo sonho, sem dúvida!
Escrevendo essa carta para você, amigo, pensando no sonho que tive com aquele homem, aquele ser ou sei lá o que era, perguntaria: na minha situação, ousaria vender a sua alma, ou iria atrás da moral, se esconder?

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