quarta-feira, 30 de julho de 2014

TENTATIVA

Estava frio e chovendo. Minha vida conjugal estava em confronto. Desisti de uma possível reconciliação com a minha mulher e fui-me. Sem destino. Mas, mesmo assim avancei solitário pelas ruas e avenidas da minha cidade. Elas estavam molhadas, lisas e mal proporcionavam atrito aos pneus do carro. O para-brisa estava embaçado – como as minhas ideias. De repente, não enxergava mais nada e tudo – em minha volta – tornou-se estranho e desconhecido. Quando recuperei minha consciência já não estava em meu carro e nem em minha cidade. Mas em um lugar inexplicável e distante da terra.
O problema – dessa vez – era outro, dado o fato de eu estar no seio de um julgamento. Como sabia? Estávamos numa longa fila. Ela estendia-se a uma rampa de cor singela onde – ao final da mesma – havia um trono. Na fila e em meu distante lugar, podia – aparentemente – ver que existiam duas portas: uma em seu lado direito e outra em sua esquerda. Na medida em que me aproximava do trono, percebia que – dependendo do que era dito, sentenciado – as pessoas eram puxadas por alguma força estranha, invisível e incombatível.
Enquanto caminhava em direção ao meu julgamento, lembrava-me da vida na terra e dos religiosos que nos ministravam mensagens aterrorizantes do juízo final e do inferno. Olha, na verdade, essa não foi a minha experiência. Mas, num aspecto, os crentes estavam certos: há, de fato, um julgamento, um bater do martelo!
 Após alguns instantes na fila, chegou a minha vez de ser julgado, sentenciado e carimbado pelo martelo divino.
Já havia me aceitado como falecido quando cheguei diante d´Ele. Mas, por incrível que pareça, em minha vez, foi totalmente diferente, ao passo que Ele não só julgava os indivíduos que na fila estavam, mas os ouvia, também:
– Nasceu em 1981, tudo ocorreu bem em seu parto, embora a sua mãe tivesse grandes complicações no pós-parto. Seu nome é Reginaldo, está com 33 anos. Quando criança foi educada e correspondeu bem a educação. Na adolescência não foi muito diferente. Mas, houve algumas violações aos nossos valores: conheceu sexo antes do casamento, visitou – por diversas vezes – prostituição antes do casamento, tornou-se um alcoólatra depois que se casou para esquecer os problemas familiares e não deu carinho suficientemente à sua filha – sem contar que trabalhou demais e esqueceu-se de outras prioridades. No entanto, não matou, não roubou, não traiu a sua esposa e não faltou com carinho para com o seu filho. Por mais que você tivesse – na terra – outras tantas qualidades, deixou a desejar! Assim, a balança inclinou-se para o lado da condenação. Sua pena será: ausência eterna do criador e dá família!.
Após a última silaba, uma porta escura logo se abriu tragando-me lentamente à dupla inexistência. Mas, até que o juiz colocou-me novamente em cena e interrogou-me:
– Não há nada a declarar?.
Aterrorizado com toda aquela atmosfera da condenação final, distante da terra e já com saudade da minha difícil família, afirmei:
- Há, sim! E todas às vezes que tentei? Pois me lembro de tentar ser melhor pai, esposo e distanciar-me de tudo aquilo que a minha consciência denunciava-me como errado, imoral. Nenhuma tentativa foi levada em consideração em sua invisível balança da justiça? Saibas, realmente posso ter sido menos do que mais em minha vida comum: seja para minha família, aos amigos, ao trabalho e para os estranhos! Entretanto, tenho certeza que as minhas tentativas sobrepõem a minha condenação – seja para a ausência do meu criador, da minha família etc. E, desse fato, realmente não podes negar. Muito menos discordar!.
Na medida em que a invisível força puxava-me à morte eterna, o juiz exclamou:
– Espera! Concluímos que terás outras chances em sua terrena vida. Por isso, Reginaldo, serás direcionado àquela porta – a do centro. Entretanto, não deves se esquecer de dois pontos. O primeiro: é muito difícil saber quando somos nós (Deus) falando em sua consciência ou os valores morais. É necessário estar em extrema sintonia para captar as nossas emanações. O segundo: é que, agora, inicia-se uma nova tentativa em relação à sua vida na terra.
Assustado com o conselho e a decisão do juiz, algo rapidamente puxou-me à porta do centro e num piscar de olhos, despertei aos gritos e com sirenes, com giroflex, muitos curiosos em nossa volta, com fortes dores pelo corpo todo e preso a um “colar” cervical devido à batida. Sim, bati o carro. E, após a batida, lembrava-me apenas dessa experiência e, mesmo assim, não tinha certeza de ter sido real ou mais simples sonho! Às vezes, reflito sobre essa experiência de vida e penso o quanto aquele conselho era intrigante: “para saber quando sou Eu falando, é necessário estar em alta sintonia.
– Pai, por que estás contando-me essa história agora? Pois não me faz muito sentido, uma vez que estamos caminhando nesse parque, nessa trilha linda, com árvores lindas à nossa volta, com um friozinho suave beijando as nossas faces e com um copo doce de café para bebermos e aquecer as nossas mãos.

– Porque nem todo café será doce, minha filha. Agora, em especial, estás bem com a vida, com a família, com a faculdade e com o seu namorado. Mas, no futuro, poderás ver esses galhos, essas folhas, essas árvores, essa paisagem e essa trilha, que pisamos agora, com outros olhos: da solidão, da depressão, da escuridão e do sofrimento. Talvez, digas que sou trágico, talvez não! Mas, o fato é que o dia mal chegará para você. Assim como chegou para mim e para muitos outros homens e mulheres. Prepara-te, pois as duas velhas amigas – a felicidade e a tragédia – se lembrarão de você e te convidarão - num momento ou noutro - para passear. Quando elas vierem ao seu encontro, saibas: é inevitável negá-las. Portanto, você sempre estarás sujeita ao acerto, bem como ao erro. Mas, haverá sempre uma chave mestra caso erre na vida: A TENTATIVA. Por isso, tente sempre.

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